terça-feira, fevereiro 19, 2013

O mal que há e o que pode haver.



... E então o carro de trás deu uma buzinada e acendeu os faróis de luz alta, acendeu o pisca, buzinou de novo, tudo para ultrapassar à sua frente em meio ao trânsito lotado, que nem com toda a sua boa vontade não permitiria que você pudesse lhe dar a dita passagem, e o chefe resolveu pegar você para Cristo e lhe dar aquela bronca desmesurada, na frente dos colegas e até dos clientes, e o síndico do prédio acabou de encontrar você saindo do elevador e resolveu transmitir aquela reclamação do vizinho do apartamento de baixo, que  você sabe que não tem qualquer fundamento, e aquele amigo de anos entendeu que a sua amizade era de vidro e a estilhaçou a ponto de transformá-la em poeira e o dia nem acabou. 

Eu bem que poderia ficar aqui tentando imaginar a sorte (ou revés) de um dia infeliz. Todos passam por isto, vez ou outra. Afinal, quem tá vivo sempre pode morrer, quem tá em cima sempre pode descer, quem tá na chuva sempre pode se molhar. Então todo mundo sabe, por experiência própria, o que seja sofrer uma injustiça. 
Mesmo num mundo iníquo e absurdo como o nosso a boa vontade ainda faz história e martiriza quem, apesar de tudo, insiste em mantê-la. E olhe que não foram poucos os heróis que perderam tudo, ou muito do tudo, por muito pouca coisa - às vezes muito menos do que a própria história nos contou. 

E então vem aquele cansaço, a falta de fé, o choro, a desilusão, a vontade mesmo de jogar tudo para o alto e fugir para alguma montanha distante. Como se isso fosse ajudar em alguma coisa, pois a memória – essa irá conosco para onde formos. 
Então, amigos, sugiro, não o esquecimento, mas a abnegação; não a irritação, mas a ternura; não a malícia, mas a misericórdia. Isso lhes parece papo carola? Não acho. Sem querer arrastar a brasa para o lado de qualquer cristo, mas acho que o melhor que podemos conquistar nesse povoado de ilusões ao qual chamamos vida é a paz de uma consciência tranquila. Saber que se fez o possível, que se tentou tudo, que até se deu o braço a torcer, tolerou, compreendeu, afagou, dialogou e nada. Porque depois disso basta lavar bem a alma, limpar as mãos, o choro, olhar para a frente e seguir, renovados. Porque os dias passam. E nada há mais inexorável do que o tempo. Nada pode parecer mudar. Nada vai apagar o que se sofreu, mas a consciência, essa mancha, qual tinta em tela branca. 

O mal que se tenha feito, da primeira vez, risca como o lápis,  e basta passar a borracha para apagá-lo. Da segunda, é como giz, e fica mais difícil limpar o canhestro do traço. Depois tinge como tinta, e então como sangue, como piche, e sempre mais difícil até que se transforme uma nódoa escura, esculpindo nossa falta de vontade ou nossa torpeza, moldando uma máscara disforme, depois um corpo grotesco, e é este mesmo que vemos no espelho quando nos encontramos com aquilo que é e era e será até o fim dos dias. O único, afinal, que mostra quem somos.

Assim, sugiro sempre a ternura, sempre o recomeço, sempre a tentativa, sempre a fé no retorno, sempre o sorriso, sempre o afago. O mal estará lá. O malvado também. Mas nós estaremos muito longe disso tudo. E o melhor: limpos.

quarta-feira, fevereiro 06, 2013

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

Ser chique ou não ser bike, eis a questão.



Esse post é para aqueles que ainda acham que ser chique é andar de carro:

Se liguem, brasileirinhos! Lá do outro lado é um luxo!

;)

M. 











Fonte: The Sartorialist.

domingo, fevereiro 03, 2013

A BICICLETA





E então, num sábado lusco-fusco com jeito de “me deixa quieto” ela resolveu sair de casa com Pança (a avó septuagenária) para ir às compras. Queria uma bicicleta. Porque andava cheia de dores nas costas e no pé, porque tinha que fazer exercícios, porque fazia tempo demais desde a última calói e porque morar na zona sul faz dessas coisas: a gente começa a querer ir pra rua sem carro. 

Bom, de qualquer forma, foi o que fez. Convidou a avó-fiel-escudeira e foram para o shopping. Tarde lusco-fusco igual a shopping lotado. Ok, tudo pelo social, ou pela saúde. 

Estacionaram o carro e se meteram a olhar tênis (sem salto, não-sapatênis, não-fashion, como ela costumava comprar). Um tênis de verdade. Horroroso e confortável. Com gel (que acreditou servir para algo além de encarecer o sapato). 

Demorada uma hora até a compra do horripilante modelito-astronauta-azul-bebê, carésimo, saíram em busca da bicicleta. Muito legal. Mas nenhuma loja tinha isso. Num shopping-monstro, somente uma possuía a indefectível magrela. 

A loja de departamentos foi o destino, então (ela que odiava entrar lá, onde se demora mais para pagar do que para pegar o item na prateleira - naquela loja enorme e lotada de gente ansiosa por comprar, comprar, comprar de tudo: desde parafuso até pneu de carro, passando por comida, eletro-eletrônico e roupas). 

Demoraram uns 7 minutos até acharem o setor de bicicletas. Todas elas dispostas, penduradas pelas rodas num lugar muito alto e sem qualquer possibilidade de escada por perto. 

Olharam ao redor e nada de atendentes. Como saber qual, daquelas bicicletas penduradas em lugares inacessíveis, seria a melhor, mais interessante, mais propícia? Pior – sabendo isso, como fazer para retirá-la dali? 

Umas moças de patins passaram e pediram ajuda por rádio. Um atendente passou depois e disse não ser do setor. Outros dois passaram e disseram não terem nada com isso: “aqui é pegar e pagar” - disseram. Pegar como? Como se pega uma bicicleta do teto e se coloca em cima do caixa? 

Ela pensou em começar a jogar itens pelo chão até que alguém viesse atendê-la ou a colocassem dentro de um camburão... “Melhor não” – pensou. Ia ficar sem a bicicleta e comprá-la era algo que já estava decidido. Desde a manhã daquele dia, quando acordou e pensou que talvez fosse interessante comprar uma bicicleta – fácil assim... as coisas eram fáceis para ela. Ela quer, ela vai atrás, ela pega e leva pra casa. E com a bicicleta seria assim, nem que tivesse que esperar uma hora até que o atendente do setor flutuante de bicicletas viesse em seu auxílio. “Tomara que ele tenha asas” – pensou. 

Nada. Quinze minutos, vinte e nada de atendentes. Foi até o caixa, falou com um gerente, falou com dois e mais dez minutos depois apareceu a atendente do setor de bicicletas, que não tinha asas, mas sorria muito. 

Duas perguntas depois e viu-se que de bicicleta a moça não entendia nada. Para saber como funcionavam as marchas ela se viu obrigada a sair e voltar duas vezes com duas informações dissonantes.

 A compradora então resolveu desistir de saber. Que comprasse a bicicleta e entendesse depois como funcionava o troço. “Não pode ser muito difícil” – pensou – “qualquer idiota anda de bicicleta e ela poderia ser uma idiota a andar também”. 

Visto que a atendente não sabia nada da coisa mas era absolutamente necessária para pegar a magrela e conduzi-la ao caixa, ficaram ali, a olhar para todas elas, cores e modelos, todos muito parecidos, e então resolveu-se por uma bonitinha com cestinha na frente. “Cestinha pra quê”? – perguntou a avó, que ria mais do que ajudava. Para carregar a bolsa fashion é que não seria, mas achou interessante ter uma. “Vai saber se um dia não serve para alguma coisa” – arrematou a compradora. Serviu, logo de início, para colocar dentro a bolsa fashion e conduzir a bike para o caixa. 

Como foi retirada do teto? Fácil. A moça trouxe uma escada e dois ajudantes depois, retiraram a tal magrela escolhida do lugar muito alto em que estava. Torceu sinceramente para não errar no modelo, porque esperar tudo aquilo para retirar outra do suspensório flutuante é que não ia querer. 

Empurraram a tal até o caixa, então, passando pelo meio dos outros departamentos e pessoas que as olhavam, sérias. “Tão olhando o quê”? – pensou. “Nunca viram uma mulher e sua avó empurrando uma bicicleta”? 

Agradeceu não ter escolhido comprar o modelo ergométrico – isso sim seria um desastre numa loja self service

No caixa não foi tão difícil quanto imaginou. Foi só retirar o código de barras e passar na máquina. Depois tiveram ainda que pegar a garantia num lugar, liberar a nota em outro e andar entre os passantes até a porta de entrada pra tentar colocar o objeto no carro – adivinhem: não havia frete. Além de self service, era self-leva-pra-casa-como-dá

Tudo seria muito tranqüilo se ela e a avó tivessem idade e saúde pra carregar o troço e enfiar dentro de um carro pequeno. Fizeram isso por mais ou menos 30 minutos sob o olhar atento de vários compradores sem nada para fazer e que não ajudaram, pelo contrário.

 Uma nova torção na coluna depois e muito suor da avó-escudeira e conseguiram enfiar a coisa no carro e até fechar o porta-malas. Não perguntem como retiraram depois a geringonça de lá. Hoje ela repousa, solitária e esbelta, na sala de jantar sob o olhar atento de dois gatos que a olham de soslaio. Talvez pensando que ela é um novo brinquedo para eles. 

Não, ela ainda não a usou. Óbvio: nessa jornada de levar a bicicleta pra casa, colocar e retirar do carro, tanto ela quanto a avó conseguiram a proeza de terminar com a saúde do que restava de coluna. Agora dê-lhe fisioterapia até que possa subir na magrela e ganhar a cidade. Quem sabe um dia...


sexta-feira, janeiro 25, 2013

PERFEIÇÃO









Uma resposta à carta intitulada ‘ O homem perfeito’, de Arnaldo Jabor.




Concordo com o Jabor – homem perfeito não existe. É realmente um erro tentar encontrar no sexo oposto qualquer possibilidade de perfeição, ou um arquétipo de ser intangível e sem máculas – algo muito parecido com um ser bíblico dos tempos de Abraão. 

Não. Sabemos disso. Já desde cedo, junto com os contos de fadas que nossas mães nos liam, nos diziam que “perfeição só a de Deus”. A escola, a igreja, a seita, a comunidade, todos já refutavam qualquer possibilidade de incutirmos em nosso subconsciente essa elevação digna dos anjos. O ser humano, e todo mundo já sabe, é falho. 

Bom, isso é pacífico e não há maiores delongas. Entretanto, a carta de Jabor, a par de nos fazer crer que não há, realmente, homem perfeito (posto que é dirigida a nós, mulheres), pretende nos acomodar a esta idéia, a conviver e até a ser feliz com ela. 

Ok. Não há seres perfeitos. Todo mundo, vez ou outra, escorrega na moral ou nos deveres. Mas fazer disso uma bandeira, ao contrário de ajudar, só nos enterra mais e mais no lodo da corrupção dos sentimentos. Não, não é papo de carola. Não estou aqui pra dizer a vocês, mulheres, que devemos nos lançar em uma cruzada contra a infidelidade masculina. Nem devemos perder tempo e dinheiro lendo manuais que ensinam como manter um homem por mais tempo, ou como casar antes dos 40, ou os dez segredos para deixar o seu homem maluco na cama. Paremos com isso e já!

Sabe, me deparei com esta idéia após ler o tal texto do Jabor para duas amigas: uma delas, uma mulher linda e experiente, dona de um senso crítico inigualável e de uma sensibilidade ímpar, a outra, uma pinup na flor da idade, com o viço e o aroma da juventude, cheia de esperança no amor e na sublimação romântica. E a reação foi a mesma: nas duas pude ver, não o contentamento que só as grandes descobertas podem trazer, mas um olhar distante e amargo, de quem perdia o último fio de esperança.

Não que eu não concorde com o texto. Não se trata disso. Acho até que ele é muito sincero. Ele realmente tenta entregar ‘o ouro ao bandido’, como se houvesse efetivamente uma briga entre os sexos ou como se a descoberta da fraqueza humana masculina fosse trazer às mulheres alguma espécie de compreensão ‘sobre-humana’ - própria, diga-se, do nosso eterno instinto maternal. 

Mas sim, podemos até fazer um esforço de consciência e compreender que dentro da revelada ‘miséria masculina’ há qualquer coisa de animal ou, como queiram, natural. E até poderíamos conviver com isso. Se quiséssemos.

Mas vejam, meninas, será que é por aí? Bom, como o texto do Jabor só jogou pela janela nosso sentimentalismo barato, mas altamente lucrativo para os machos (depois explico melhor porque), entendi que me restava a insana tarefa de trazer de volta um pouco da crença no lado bom disso tudo. Mas veja, REALMENTE BOM. Sem ‘faz-de-conta que tá tudo bem porque o mundo é assim mesmo e não mudará’.

Assim, vamos por partes:

Primeiro, não quero essas carinhas tristes estragando a maquiagem. Vamos começar dizendo que o mundo atualmente possui oito bilhões de pessoas. Desses oito bilhões, imaginemos que três bilhões são machos. Como é fato (e não fui eu quem disse) que toda a unanimidade é burra, deve haver alguém, nesses três bilhões restantes (digamos um por cento), que não saia por aí munido de uma pistola cheia de espermatozóides, pronto a atirar em qualquer ser que cheire a estrogênio. Deve haver alguém do sexo masculino, que não seja crente, gay ou psicótico, e que não anda por aí brincando com os próprios testículos a “Deus dará” e com qualquer uma. 




Sim, por que não imaginarmos que há, na espécime macho, algum que não está preso à maçante filosofia do tacape-caçador? Seja por qual motivo for - se está passando por alguma doença provisória chamada paixão, ou se por ideologia mesmo, ou simplesmente porque não é ‘alfa’ o suficiente pra sair se atirando de cabeça em qualquer buraco (literalmente falando). Eu mesma conheço homens assim, e olhe, não são gays, não são feios, não são esquizóides e nem moram com a mãe. São poucos, mas existem. E se eu, que sou só uma, conheço uns... dois homens assim, façam a conta e multipliquem, em proporção, por uma em cada grupo de 100 mulheres. Vai dar um número considerável. Pouco relativamente à grande massa espermática restante, mas ainda um número importante.

Segundo, não se assustem! Para encontrar algo que se assemelhe ao amor-romântico vocês não precisarão virar lésbicas. Nada disso! Não é solução passarmos a formar uma raça de Valkírias, cheias de ódio pelo elemento masculino. Lembrem-se: perfeitos ou imperfeitos, somos todos filhos de Deus. Se podemos compreender e conviver com esse tipo de atitude, de forma soberana e consciente, isso se deve ao nosso espírito agregador e visivelmente mais elevado. 

Vejam vocês que, como disse antes, esse nosso instinto materno é altamente lucrativo aos machos. Imaginem se passássemos a usar dos mesmos subterfúgios irracionais para nos justificarmos dessas pequenas torpezas e começássemos a buscar fora do meio o nosso macho-alfa do momento (afinal, também somos seres fisiológicos). Teríamos famílias totalmente desestruturadas! Ou vocês acham que os ‘pais-de-família’ ficariam em casa, preocupados em cuidar das fraldas ou da lição de casa enquanto estivéssemos no barzinho buscando um tacape-caçador que não o do cotidiano? Sim, talvez você diga agora que isso é injusto, que somente a nós, mulheres, na generalidade dos casos, é que cabe a tarefa de organizar e empreender a família como grupo social. Mas é isso mesmo! Na grande maioria dos casos - não a totalidade, claro-, esta tarefa cabe a nós. Exatamente por sermos assim, menos mundanas, mais sentimentais. E não há mal nenhum nisso, pelo contrário. Quantas famílias se estruturam com a mãe, sem qualquer pai??? Muito mais do que as famílias com o mantenedor puramente masculino...

Então, meninas, seja fato ou filosofia, ainda que o macho seja, na maioria dos casos, mais inconstante e volúvel no que diz com o sexo, não podemos nos esquecer do principal. Não sei onde está escrito que temos que passar a vida inteira ao lado de uma mesma pessoa do sexo oposto, mas se isso lhes parece bonito e poético, não se esqueçam que, sendo ou não ilusão, é dela que se alimentam os nossos filhos, e foi o que nos alimentou desde crianças. Então não há mal nenhum em sonhar.

 Afinal, a vida, tal como a conhecemos, não passa de uma grande ilusão... E se somos ou não melhores enquanto espécime ou espírito, se somos realmente mais sensíveis, e se nos unimos pensando em construir um futuro, em criar filhos, em nos dignificarmos pela constância e pela compreensão, e se acreditamos em romantismo, e nos esforçamos pra tentar reciclar o tempo e o cotidiano - não tentando subverter o sentimento, mas recriá-lo -, e se cremos que é possível, sim, vencermos, pela razão, as pequenas misérias e os maus atos, e tantas outras coisas que aparentemente nos distinguem do masculino, isso se deve a algo muito bonito e que, talvez, tenhamos conquistado com milênios de progresso e evolução. E é por isso que me dirijo a vocês nesse texto. Não tentando insuflá-las ao rancor do amor-partido, mas mostrando o quanto somos melhores que toda essa mesquinharia que se vende em comerciais de cerveja.


MCCollares

terça-feira, janeiro 22, 2013

Apresentando: Dedé.


Se eu posso agradecer por algo neste ano, certamente agradeço à Dedé. 

Antes dela, a casa era mais triste, as pessoas menos ternas, menos pacientes.

Antes da Dedé, todo mundo passava discutindo coisas chatas e desimportantes, ou assistia mais TV, comia qualquer coisa entre um programa e outro, falava muito ou gritava mais. 

Dedé, desde que chegou, fez-se criança. A única, ou a derradeira. 

Passou a ser a proeza da casa, a mais ativa, a mais atrapalhada e a que faz rir como ninguém. 

Dedé ensinou à minha mãe a brincadeira da bolinha, a meu pai a rir gostoso de suas gracinhas, a meu irmão a brincar de ternura. Mal sabia eu que, um dia, veria minha mãe dando banho na Dedé com um tal carinho que só vi nos tempos de criança, quando nos embalava ou contava histórias, ou então quando nos reunia na sala da casa com papel e cola Tenaz para brincarmos de fazer mosaicos com pétalas de rosa. E eu devia ter uns três anos... Não mais. 

Dedé trouxe de volta a nossa infância mixada num carinho de pai, mãe e irmão que há tempos não via. 

Ela uniu, em torno de um ser comum - ela mesma - a doçura que um dia foi embora num natal longínquo, quando uma árvore toda enfeitada foi jogada pela janela do apartamento do terceiro andar e espatifou os nossos sentimentos. 

Dedé chegou num dia de chuva, ensopada até o último pêlo, e magra e tristonha. E foi trazida num táxi por minha mãe depois que ela a olhou, silenciosamente, do alto do seu mundo-cão, e não pôde sequer chorar - sem forças que estava. 

Dedé é marrom-estranho, tem o pêlo meio confuso, gosta de sentar perto da gente colocando as patinhas em cima de nosso colo, como para dizer: “Nunca me deixe, tá”?.

Ultimamente anda brincando com os passarinhos das árvores do pátio, e dia desses quase matou um de susto, quando latiu. Acho que, de tanto pegar sereno, quando ainda morava na rua, faltou-lhe a voz e então saiu um 'sonzinho' meio música, algo sustenido em dó-de-si e sem graça, que o bichinho certamente teve pena de ouvir.

Dedé agora faz dieta para emagrecer. E leva minha mãe para passear todos os dias. Depois volta, espreguiça-se, lentamente, na soleira da porta, entra, bebe água do tacho, dá duas voltas em torno do abacateiro e deita-se em cima do tapete da entrada da cozinha. Fica ali até a hora em que decide ir para a sua casinha, para se amontoar em cima dos paninhos que são só dela.

Desde que chegou, só reclamou uma vez: quando foi para a “pet” tomar o primeiro “banho administrativo”. Arrumou briga com uns cinco cachorros e foi jurada de morte por um Pit-Bull. Desde então, decidiu que, banho, só o que minha mãe lhe dá, após o qual sai andando, dá duas voltas em torno do abacateiro e se esfrega toda na terra preta, ante os gritos da minha mãe e as risadas de meu irmão. Meu pai não fala. Olha-a e resmunga baixo. Depois a pega, a conduz pela coleira, molha-a de novo, e a ensaboa com shampoo, e a seca inteira com a toalha, depois com o secador de cabelo, e tem que convencê-la a se deixar limpar e secar dando-lhe na boca biscoitos recheados de limão a cada 3 minutos. Por isso a dieta da Dedé... 

sábado, janeiro 19, 2013

Feminismo na rede, é peixe.


Tenho notado, e ultimamente mais do que antes, uma certa aversão generalizada ao movimento conhecido por “Feminismo”. Basta alguém se auto-afirmar “feminista” para ser tachado de chato, extremista, desinteressante ou coisa até pior. 

Tenho visto e lido coisas, vindas de mulheres, principalmente, que têm me deixado sobremaneira desapontada. Coisas que não sairiam da boca de minha avó, se ela fosse a retrógrada que sei que nunca foi. 

Eu sempre soube, e isso é fato, que o ser humano não possui qualquer compromisso com a sua história. Não poderia, portanto, esperar que isso não ocorresse entre nós, mulheres. 

A luta centenária de milhares de outras mulheres pelos direitos mais básicos foi realmente esquecida, e hoje vejo retrocedermos a tal ponto de termos, em pleno século XXI, de falar novamente em liberdade como se fosse coisa totalmente desconhecida por toda a nossa sociedade ocidental, ao menos desde a Revolução Francesa. 

Quando falo em “feminista”, obviamente estou me referindo não somente a mulheres, mas a homens que não concordam com a “coisificação” da mulher - seja por uma convicção religiosa, social, cultural ou geográfica.  E esta "coisificação" é que tem sido o estopim do desrespeito, dos crimes vários e do preconceito em inúmeros lugares no mundo. 

No Brasil, não é diferente, mas aqui vigora a hipocrisia. Não usamos, nós mulheres, uma “burca” por fora do corpo, mas interna. Introjetada por centenas de anos de repressão sócio-cultural, que nos ensina que liberdade feminina está intimamente relacionada à promiscuidade e à quebra do papel biológico que todas nós, necessariamente, deveríamos cumprir, de forma quase sagrada.

Infelizmente, se hoje, eu, Mariana, fosse posar nua para uma revista “masculina”, certamente teria mais respeito do que se passasse a tratar de liberdade sexual em meus textos no blog. E Isso não é invenção ficcional - é fato. 

A mulher pode transar, sim, desde que seja pouco e por amor. O romantismo é ligado ao feminino de uma forma que parece sacralizar o sexo. E isso é tratado como moderno. Nada além dele é permitido, ou respeitado, ao menos. Mas não se diga isso de um homem e todo mundo sabe. Nem vamos entrar no assunto, porque está mais do que óbvio.

“Bruna Surfistinha” virou filme e levou milhões ao cinema. Mas a blogueira que resolveu contar as suas aventuras sexuais (sem cobrar por sexo) num blog recebeu até ameaça de morte, e de mulheres inclusive (vejam a revista Carta Capital - lá está a reportagem). 

Então só tenho motivos para me envergonhar.  

Por isso coloco aqui o texto de uma menina muito legal, que talvez expresse exatamente o que penso, e até melhor do que faço neste texto.

E gosto tanto de liberdade, que coloco o texto em meu blog pessoal, como expressão soberana de minha opinião acerca do tema. 

Concordem ou não, ao menos EU não vou me calar.

MCCollares





"As feministas é que são chatas


por Aline Valek


Alguns acham que fãs de futebol são chatos. Outros insistem que chatos são os evangélicos. Outros discordam, acham que chatos são os gays. É particularmente difícil determinar a chatice que define um grupo de pessoas, mas parece haver um consenso sobre as feministas: elas é que são chatas.

É claro que existe um universo de chatice explorado diariamente, mas a chatice das feministas é de uma proporção tão gigantesca que a chatice de pessoas desagradáveis como as que assoviam para você na rua acabam passando em branco.

Tem gente que diz que mulher não pode sair de roupa curta. Tem que se valorizar. Mas sair sem maquiagem não pode, tem que ser feminina. Outros dizem que tem que alisar o cabelo, porque cabelo crespo ou indomável não pode ser bonito. São pessoas que vão olhar para alguém que não se encaixa no padrão e dizer “ih, você precisa se cuidar”. Mas as feministas é que são chatas.

Tem gente que conseguiu determinar o que é uma “mulher de verdade”, em uma listinha cheia de detalhes complicados, como: não pode ser magra demais, mas também não pode ser gostosona, porque isso é vulgar; não pode gostar de beber, nem querer se divertir; tem que ser pra casar, para cuidar do marido quando ele precisar. Se não se encaixar na listinha com outros quinhentos e oitenta e três itens, só pode ser puta. Essas pessoas também dizem que mulher não pode falar palavrão e nem gostar de sexo como os homens. Mas as feministas é que são chatas.

Tem gente que diz que, se uma mulher não quer transar com um cara que foi legal com ela, ela é uma vaca por deixá-lo na friendzone. Mas tem gente que também diz que se a mulher transa com quem quer, quando quer, ela é uma vadia. Há quem diga que o sexo desvaloriza a mulher, então ela precisa se “guardar”. Essas pessoas devem achar que buceta se desgasta com o uso. Mas as feministas é que são chatas.

Tem gente que diz que homem não serve pra cozinhar. Que é um completo retardado que não é capaz de fazer sozinho a mais simples das tarefas domésticas sem fazer algo errado ou sem chamar a mulher para ajudar, afinal, ela é que foi feita pra isso. Essas pessoas também dizem que homem é uma criatura rasa e descontrolada que vai querer enfiar o peru em qualquer mulher que vê pela frente. Tem gente que diz que homem com sensibilidade não pode, porque é “gay”. E ainda tem gente que diz que é o homem quem tem que pagar a conta. Mas as feministas é que são chatas.

Tem gente que adora quando as mulheres tiram fotos de lingerie e publicam na internet, desde que não sejam gordas, velhas, feias, ou que usem lingerie bege. Tirar a roupa para protestar também não pode. Porque há quem diga que as mulheres até podem lutar por seus direitos, mas não podem “lutar demais”. Essas pessoas é que definem quem pode ficar nua, aonde, por qual motivo e para quem elas devem se mostrar. Mas as feministas é que são chatas.

Querem cagar regra sobre o que a mulher pode ou não fazer com seu próprio corpo. Mas as feministas é que são chatas.

Feministas são chatas porque falam de assuntos que ninguém quer ouvir (porque, quem sabe, se não falassem tanto de estupro, ele magicamente deixaria de existir). Feministas (e estamos falando de homens e mulheres) são as malas sem alça que desconstroem as mensagens da mídia e questionam tudo. Tudo porque acreditam na ideia radical que mulheres são seres humanos. 

É, as feministas são chatas. E eu, que escrevi isso, devo ser também". 

***




quinta-feira, janeiro 17, 2013

A VERDADE







A verdade é que a verdade vicia.
Tudo bem, a mentira também vicia, mas a verdade vicia mais. 
Começa num dia em que a gente pensa: "Droga, ando cansada de dizer o que não sinto"!, e então diz a verdade. Ou então noutro em que a gente diz: "Droga, ando cansada de fingir o que não penso"!, e então desmascara. 
A verdade é que a verdade é um pacto consigo mesmo e com o mundo - mas isso é consequência. 
Mas a verdade é que não é fácil. Verdade, mesmo, é que pouca gente gosta. Prefere o conforto, porque a verdade é topar com a própria verdade, e isso dói. Mas também cura. Então a verdade é que é bom, e vicia, porque depois que se começa, parece que liga um botãozinho dentro do cérebro, que só consegue estimular neurônios de verdade. 
É verdade que há gente que vai dizer: "Poxa, podia ao menos ser educada"?, ou: "Poxa, podia ao menos ser polida"?, mas a verdade é que não dá, ou é muito complicado... É vício, entende? Como quando alguém pergunta:  "Ficou legal"?, e você não consegue dizer sim quando não ficou. 
Mas verdade seja dita: a verdade só deve sair da boca quando é questionada. Não deve virar boato, dito antes do perguntado e sem qualquer critério. Porque aí, verdade é que vira grosseria e isso só magoa, quando a verdade constrói. 
O lado bom é que depois que se faz o pacto com a verdade, é bem verdade que todo mundo que a quer vem perguntar para você qual é a verdade. Mas sejamos sinceros: a verdade é sozinha - é só sua.  Não necessariamente pertence a mais alguém. Então o importante é que ela faça sentido de ser verdade para você. Os outros terão as próprias verdades e isso é problema de cada um. 
Verdade demais? É. 



MCCollares

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Quinta-feira é dia!







... de coluna EU SOU UMA OUTRA na Rádio Elétrica, às 21 horas, e no Portal Discorra!!!

Anotado?

Vamos voltar a ler agora.

;)

MCCollares