... E então o carro de trás deu uma buzinada e acendeu os faróis de luz alta, acendeu o pisca, buzinou de novo, tudo para ultrapassar à sua frente em meio ao trânsito lotado, que nem com toda a sua boa vontade não permitiria que você pudesse lhe dar a dita passagem, e o chefe resolveu pegar você para Cristo e lhe dar aquela bronca desmesurada, na frente dos colegas e até dos clientes, e o síndico do prédio acabou de encontrar você saindo do elevador e resolveu transmitir aquela reclamação do vizinho do apartamento de baixo, que você sabe que não tem qualquer fundamento, e aquele amigo de anos entendeu que a sua amizade era de vidro e a estilhaçou a ponto de transformá-la em poeira e o dia nem acabou.
Eu bem que poderia ficar aqui tentando imaginar a sorte (ou revés) de um dia infeliz. Todos passam por isto, vez ou outra. Afinal, quem tá vivo sempre pode morrer, quem tá em cima sempre pode descer, quem tá na chuva sempre pode se molhar. Então todo mundo sabe, por experiência própria, o que seja sofrer uma injustiça.
Mesmo num mundo iníquo e absurdo como o nosso a boa vontade ainda faz história e martiriza quem, apesar de tudo, insiste em mantê-la. E olhe que não foram poucos os heróis que perderam tudo, ou muito do tudo, por muito pouca coisa - às vezes muito menos do que a própria história nos contou.
E então vem aquele cansaço, a falta de fé, o choro, a desilusão, a vontade mesmo de jogar tudo para o alto e fugir para alguma montanha distante. Como se isso fosse ajudar em alguma coisa, pois a memória – essa irá conosco para onde formos.
Então, amigos, sugiro, não o esquecimento, mas a abnegação; não a irritação, mas a ternura; não a malícia, mas a misericórdia. Isso lhes parece papo carola? Não acho. Sem querer arrastar a brasa para o lado de qualquer cristo, mas acho que o melhor que podemos conquistar nesse povoado de ilusões ao qual chamamos vida é a paz de uma consciência tranquila. Saber que se fez o possível, que se tentou tudo, que até se deu o braço a torcer, tolerou, compreendeu, afagou, dialogou e nada. Porque depois disso basta lavar bem a alma, limpar as mãos, o choro, olhar para a frente e seguir, renovados. Porque os dias passam. E nada há mais inexorável do que o tempo. Nada pode parecer mudar. Nada vai apagar o que se sofreu, mas a consciência, essa mancha, qual tinta em tela branca.
O mal que se tenha feito, da primeira vez, risca como o lápis, e basta passar a borracha para apagá-lo. Da segunda, é como giz, e fica mais difícil limpar o canhestro do traço. Depois tinge como tinta, e então como sangue, como piche, e sempre mais difícil até que se transforme uma nódoa escura, esculpindo nossa falta de vontade ou nossa torpeza, moldando uma máscara disforme, depois um corpo grotesco, e é este mesmo que vemos no espelho quando nos encontramos com aquilo que é e era e será até o fim dos dias. O único, afinal, que mostra quem somos.
Assim, sugiro sempre a ternura, sempre o recomeço, sempre a tentativa, sempre a fé no retorno, sempre o sorriso, sempre o afago. O mal estará lá. O malvado também. Mas nós estaremos muito longe disso tudo. E o melhor: limpos.
















